sábado, 4 de março de 2017

A Estela Das Constelações


A Estela Das Constelações
ID: 144.314.207.48 – yds314

Não haviam nuvens ao entardecer do vigésimo quarto dia. Os pássaros de fogo, os hofa’ot, cruzavam a pré-noite incandescendo suas plumas num espetáculo, como de costume, sobrenatural, por demais e sempre apreciado pelos habitantes das tendas e das cavernas e a principal delas era a Meurat Há’Adam Kásia[1] e se sabia, pela tradição, que uma noite sem nuvens era uma vigília de mistérios abertos, conforme dizia a agadá: - “Um homem que ama uma mulher, deseja vê-la nua, assim como o Senhor do Universo deseja ser visto sem véus”. Logo os céus estariam magnificamente estrelados exibindo aos iniciados o alfabeto celeste na abóboda de Aur.

O cometa Yadésh fazia o seu retorno de trezentos e quatorze anos cruzando as constelações, as letras do alef-beit elohai, deixando, aos despertos, a mensagem do anjo divino enviado por Lorde Atiká.

- Eis a pena de D'us com a qual ele escreve os Seus mistérios sobre o Seu pergaminho celeste. As constelações são suas letras, as estrelas suas vogais, e com elas os Seus anjos anotam a música do Jardim do Éden sobre a pauta musical da Sabedoria e quem for sábio compreenderá como interpretá-la" – Recitou com kavaná Avigdor, o patriarca da décima segunda tribo dos B’ney Éber apontando com o indicador esquerdo para o cometa. Seria dele o discurso esotérico que daria abertura à assembleia mística nesta noite.

- Metatron! – Exclamaram alguns outros dos líderes das tribos aludindo que o Yadésh era o próprio Escriba Divino vestido sob as flamas azuis de poeira e gelo do cometa cujo periélio era de exatos 314[2] anos. Logo o anjo luminoso cruzaria os céus sobre o Pilar de Yigal e Shefirá – o obelisco da pedra lápis-lazúli e sua passagem faria brilhar o código de Arba Gimra[3] – as quatro joias – como transmitido pela tradição esotérica de Aur.

- Berich atá Atiká Qadishá Gal Há’Sodot – Bendito sejas Tu ó Ancião Sagrado que revelas os mistérios – recitaram todos os que iriam participar da Razá enquanto faziam com ambas as mãos o mudrá sacerdotal.
Pergaminhos antigos relatam as brumas da Idra Mistor[4] que acontecera em Omeq Liviná[5] durante a Primeira cheia de Leváv[6] no mês de Qeshet[7]. Eis a sua narrativa:

“Assentaram-se na forma de uma espiral galáctica ao redor da Estela das Constelações – o Monolito shocham de treze metros de altura, um dos oitenta e seis pilares do mundo angélico cujo nome espiritual é Tzafenat Bat Peni’Ël e cuja beleza deixava todos homens com os corações e as mentes elevadas e desejosos para penetrar os seus mistérios. Conta a agadá que Peni’Ël brilha como a luz de uma das gigantes azuis e que o universo pode ser visto através dela. Uma outra agadá narra sobre um homem impuro cujos olhos foram queimados ao tentar contemplar a beleza angélica de Tzafenat Bat Peni’Ël. Seu nome era Tumá[8]. A experiência o purificou e ele passou a ser chamado de Tahorá cujo significado é “pureza”. Ele vive ainda hoje como o eremita guardião do “Poço de Sheva” que fica em uma sub caverna abaixo da Meurá de Adam Kásia e que recebe, por um afluente, as águas púrpuras do Argaman.

Os participantes da Idra Mistor, algumas vezes nomeada Idra Ila’á, eram em número de 73, valor esotérico da Sabedoria e faltando apenas um, a Assembleia não se realizaria.

Através da abertura no teto da caverna podiam ver Qéshet (Sagitárius) se posicionar acima do Obelisco estelar. Assim que a constelação alcançou a posição mencionada nos textos antigos, os líderes das Tribos místicas do Deserto de Qédem começaram a entoar a Shirat Sale’í – a Canção da Estela das Constelações – um mantra registrado no Réza Qédma[9]:-

 “Adonai sale’í umetsudatí, umefaltí, Eli tsurí echessê bô, maguiní ve’kéren yish’í misgabí”.

 Cento e quarenta e quatro mil micro pedras haviam caído para repousar no fundo de todas as ampulhetas que, como já se sabe, todos os membros traziam atadas, em um cordão feito de especiaria trançada – propício para a acasião-, ao redor dos pescoços e que começaram a brilhar, quando alcançaram a setuagésima segunda recitação do mantra e, então, centelhas luminosas surgiram vindas de dentro da Estela, também chamada deste os tempos antigos de “O Portão das Estrelas”, assim nomeada devido ao seu segredo: As luzes das estrelas das setenta e duas principais constelações, mergulharam através dos setenta e dois portais – os Stargates celestiais - para emergir através da Pedra Negra de Metatron – O Escriba Divino – como também é conhecida a Estela das Constelações. Imediatamente após emergirem da Pedra, transmigraram para dentro dos corpos dos líderes das tribos que passaram a “profetizar sabedoria” encarnados com as centelhas luminosas dos arquivos celestiais. Suas vozes entoadas como uma partitura angélica, começaram a revelar os mistérios escritos no “Rezá Kedmá – O Livro da Sabedoria Ancentral” durante toda a primeira vigília[10] e ao final dela, Selái, uma das filhas de Tahorá – o ancião guardião do Poço de Sheva - entrou pela passagem côncava no lado oriental da caverna depois de subir os degraus da Sulam Yesód she’be’Yesod Ami’Ël  –  trazendo, junto com outras jovens, bandejas feitas de even-tzohar[11] repletas com copos feitos de madeira de tzipornim cheias com o vinho místico feito com as uvas das frondosas parreiras de Aur – as anavim sodim. Abaixo da meurá ouviam-se as águas do Argaman correndo pelo álveo de Selaé. O som das águas desaguando abaixo da caverna era uma canção esotérica aos ouvidos dos membros da Idra Mistor que cheiravam especiaria enquanto saboreavam o delicioso vinho.

Os membros logo retomariam as recitações. Aguardavam apenas que o cometa Yadésh estivesse cruzando o Pilar de Yigal e Shefirá da assembleia de Tzafenat Bat Peni’Ël que se realizava uma vez a cada 314 anos.

- Ei! Qása? Como está o seu vinho? – Gritou Avigdor levantando seu copo e estampando um sorriso maroto nos lábios.

– Melhor que o seu amigo! Respondeu Qása. – Como assim melhor que o meu? Retrucou Avigdor olhando para o fundo do seu copo com uma das sobrancelhas erguidas. – Não vieram ambos das mesmas videiras? – Completou.

- Mas o meu foi servido pela própria beleza, a filha de Tahorá! Respondeu Qása amparado pelos risos de todos os outros.

- Selái? Chamou Avigdor – sirva-me mais, por favor! Pediu erguendo o copo e arrancando mais risos dos amigos.

Enquanto aguardavam, alguns dos membros foram até a entrada da caverna de Adam Kasia e se sentaram na Sahada D’Nurá – a Plataforma do Testemunho de Fogo – onde desejavam testemunhar a aparição dos Amudim Vovim – Os Pilares de Fogo – que caminham pelo deserto à noite sempre com mensagens esotéricas aos despertos uma vez que são criaturas vivas.

Sobre o Vale de Liviná, ele se encontra a 314 quilômetros deserto de Qédem adentro. Situado dentro da cratera de impacto do M314-26[12] – uma joia que se desgarrou das vestes azuis do anjo Yadesh no ano 44.314 – Omeq Liviná é também chamado de Gan Tziporá – O Jardim de Séfora – pois foi semeado com as vinte e seis sementes do Jardim superior de Lorde Atiká. Disseram os sábios de Aur: - Por que ele se chama Gan Tzipora? Porque Tzípora tem as mesmas letras de Há’Tzeruf cujo significado é “O Permutador”, pois foi neste local que Geon Nistar – o sábio – permutou as letras que fizeram brotar as vinte seis sementes que floresceram no Vale de Livina e é por esta razão que os sábios vem até aqui para estudar das permutações dos Nomes Sagrados de Atiká.

Os antigos mestres da sabedoria dos B’ney Éber foram quem escavaram as cavernas nas quais habitaram, durante milênios, nas bordas da cratera do M314-26 e, principalmente a meurá de Adam Kássia.

- Avigdor? Nos conte a agadá sobre a vara mística do mestre Moisés a qual Jetro havia plantado no jardim dentro de sua tenda? – Pediu Avner, o líder da terceira tribo. – E por que ele lhe deu Tzípora sua filha por esposa? – Completou.

- Na vara sagrada está gravado o Sagrado Nome do Senhor do Universo através da cifra atbash que não era conhecida de todos aqueles que tentaram retirar a vara do jardim. Jetro então prometeu que daria sua filha para o homem que conseguisse ler o Nome e levantar a vara. Quando Moisés entrou no jardim e viu a vara, ele leu a cifra, pois sabia como permuta-la e revelou o Nome Sagrado. Ele ganhou Tzípora justamente por este mérito, pois Tzipora tem as mesmas letras de há’Tzeruf que é permutar.

- Este não é o segredo dos pássaros de fogo Avigdor? – Interrompeu Ëdá – o jovem[13] questionando sobre os hofa’ót.

- A permutação dos Nomes Sagrados e das palavras da Torá que Moisés recebeu, cria um pássaro de fogo e sobre suas asas a alma se eleva. Através de dois métodos[14] de permutação “hofa’á” se transforma em Tzipor que é a palavra no eberiano para pássaro.





[1] O Adão Celeste – Arquétipo de toda humanidade.
[2] Gematria de Metatron e Shaddai que é o nome do cometa no sentido inverso: Yadésh
[3] Hiya (Shekiná), Ora (Buda), Dirka (Senda) e Kushta (Ordem) – semelhante ao Lama, Buda, Dharma e Sanga do budismo tibetano.
[4] Assembleia do Mistério
[5] Vale de Liviná
[6] Coração de Atiká – A Quinquagésima Lua de Aur
[7]14º dia de Kislim14º dia de Kislimu
[8] Impuro
[9] Segredo Ancestral
[10] Do ocaso do primeiro sol até a ascensão de Pála, a terceira lua.
[11] Pedra do Brilho
[12] Metatron Shadai Adonai
[13] Edá há’Naar – uma alusão ao Anjo Metatron.
[14] Atbash e Avgad


Excerto
Crônicas De Qédem
Edição Comemorativa
10 Anos

Autor
Dipankara Vedas
Misha'Ël Ha'Levi





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