sábado, 4 de março de 2017

A Estela Das Constelações


A Estela Das Constelações
ID: 144.314.207.48 – yds314

Não haviam nuvens ao entardecer do vigésimo quarto dia. Os pássaros de fogo, os hofa’ot, cruzavam a pré-noite incandescendo suas plumas num espetáculo, como de costume, sobrenatural, por demais e sempre apreciado pelos habitantes das tendas e das cavernas e a principal delas era a Meurat Há’Adam Kásia[1] e se sabia, pela tradição, que uma noite sem nuvens era uma vigília de mistérios abertos, conforme dizia a agadá: - “Um homem que ama uma mulher, deseja vê-la nua, assim como o Senhor do Universo deseja ser visto sem véus”. Logo os céus estariam magnificamente estrelados exibindo aos iniciados o alfabeto celeste na abóboda de Aur.

O cometa Yadésh fazia o seu retorno de trezentos e quatorze anos cruzando as constelações, as letras do alef-beit elohai, deixando, aos despertos, a mensagem do anjo divino enviado por Lorde Atiká.

- Eis a pena de D'us com a qual ele escreve os Seus mistérios sobre o Seu pergaminho celeste. As constelações são suas letras, as estrelas suas vogais, e com elas os Seus anjos anotam a música do Jardim do Éden sobre a pauta musical da Sabedoria e quem for sábio compreenderá como interpretá-la" – Recitou com kavaná Avigdor, o patriarca da décima segunda tribo dos B’ney Éber apontando com o indicador esquerdo para o cometa. Seria dele o discurso esotérico que daria abertura à assembleia mística nesta noite.

- Metatron! – Exclamaram alguns outros dos líderes das tribos aludindo que o Yadésh era o próprio Escriba Divino vestido sob as flamas azuis de poeira e gelo do cometa cujo periélio era de exatos 314[2] anos. Logo o anjo luminoso cruzaria os céus sobre o Pilar de Yigal e Shefirá – o obelisco da pedra lápis-lazúli e sua passagem faria brilhar o código de Arba Gimra[3] – as quatro joias – como transmitido pela tradição esotérica de Aur.

- Berich atá Atiká Qadishá Gal Há’Sodot – Bendito sejas Tu ó Ancião Sagrado que revelas os mistérios – recitaram todos os que iriam participar da Razá enquanto faziam com ambas as mãos o mudrá sacerdotal.
Pergaminhos antigos relatam as brumas da Idra Mistor[4] que acontecera em Omeq Liviná[5] durante a Primeira cheia de Leváv[6] no mês de Qeshet[7]. Eis a sua narrativa:

“Assentaram-se na forma de uma espiral galáctica ao redor da Estela das Constelações – o Monolito shocham de treze metros de altura, um dos oitenta e seis pilares do mundo angélico cujo nome espiritual é Tzafenat Bat Peni’Ël e cuja beleza deixava todos homens com os corações e as mentes elevadas e desejosos para penetrar os seus mistérios. Conta a agadá que Peni’Ël brilha como a luz de uma das gigantes azuis e que o universo pode ser visto através dela. Uma outra agadá narra sobre um homem impuro cujos olhos foram queimados ao tentar contemplar a beleza angélica de Tzafenat Bat Peni’Ël. Seu nome era Tumá[8]. A experiência o purificou e ele passou a ser chamado de Tahorá cujo significado é “pureza”. Ele vive ainda hoje como o eremita guardião do “Poço de Sheva” que fica em uma sub caverna abaixo da Meurá de Adam Kásia e que recebe, por um afluente, as águas púrpuras do Argaman.

Os participantes da Idra Mistor, algumas vezes nomeada Idra Ila’á, eram em número de 73, valor esotérico da Sabedoria e faltando apenas um, a Assembleia não se realizaria.

Através da abertura no teto da caverna podiam ver Qéshet (Sagitárius) se posicionar acima do Obelisco estelar. Assim que a constelação alcançou a posição mencionada nos textos antigos, os líderes das Tribos místicas do Deserto de Qédem começaram a entoar a Shirat Sale’í – a Canção da Estela das Constelações – um mantra registrado no Réza Qédma[9]:-

 “Adonai sale’í umetsudatí, umefaltí, Eli tsurí echessê bô, maguiní ve’kéren yish’í misgabí”.

 Cento e quarenta e quatro mil micro pedras haviam caído para repousar no fundo de todas as ampulhetas que, como já se sabe, todos os membros traziam atadas, em um cordão feito de especiaria trançada – propício para a acasião-, ao redor dos pescoços e que começaram a brilhar, quando alcançaram a setuagésima segunda recitação do mantra e, então, centelhas luminosas surgiram vindas de dentro da Estela, também chamada deste os tempos antigos de “O Portão das Estrelas”, assim nomeada devido ao seu segredo: As luzes das estrelas das setenta e duas principais constelações, mergulharam através dos setenta e dois portais – os Stargates celestiais - para emergir através da Pedra Negra de Metatron – O Escriba Divino – como também é conhecida a Estela das Constelações. Imediatamente após emergirem da Pedra, transmigraram para dentro dos corpos dos líderes das tribos que passaram a “profetizar sabedoria” encarnados com as centelhas luminosas dos arquivos celestiais. Suas vozes entoadas como uma partitura angélica, começaram a revelar os mistérios escritos no “Rezá Kedmá – O Livro da Sabedoria Ancentral” durante toda a primeira vigília[10] e ao final dela, Selái, uma das filhas de Tahorá – o ancião guardião do Poço de Sheva - entrou pela passagem côncava no lado oriental da caverna depois de subir os degraus da Sulam Yesód she’be’Yesod Ami’Ël  –  trazendo, junto com outras jovens, bandejas feitas de even-tzohar[11] repletas com copos feitos de madeira de tzipornim cheias com o vinho místico feito com as uvas das frondosas parreiras de Aur – as anavim sodim. Abaixo da meurá ouviam-se as águas do Argaman correndo pelo álveo de Selaé. O som das águas desaguando abaixo da caverna era uma canção esotérica aos ouvidos dos membros da Idra Mistor que cheiravam especiaria enquanto saboreavam o delicioso vinho.

Os membros logo retomariam as recitações. Aguardavam apenas que o cometa Yadésh estivesse cruzando o Pilar de Yigal e Shefirá da assembleia de Tzafenat Bat Peni’Ël que se realizava uma vez a cada 314 anos.

- Ei! Qása? Como está o seu vinho? – Gritou Avigdor levantando seu copo e estampando um sorriso maroto nos lábios.

– Melhor que o seu amigo! Respondeu Qása. – Como assim melhor que o meu? Retrucou Avigdor olhando para o fundo do seu copo com uma das sobrancelhas erguidas. – Não vieram ambos das mesmas videiras? – Completou.

- Mas o meu foi servido pela própria beleza, a filha de Tahorá! Respondeu Qása amparado pelos risos de todos os outros.

- Selái? Chamou Avigdor – sirva-me mais, por favor! Pediu erguendo o copo e arrancando mais risos dos amigos.

Enquanto aguardavam, alguns dos membros foram até a entrada da caverna de Adam Kasia e se sentaram na Sahada D’Nurá – a Plataforma do Testemunho de Fogo – onde desejavam testemunhar a aparição dos Amudim Vovim – Os Pilares de Fogo – que caminham pelo deserto à noite sempre com mensagens esotéricas aos despertos uma vez que são criaturas vivas.

Sobre o Vale de Liviná, ele se encontra a 314 quilômetros deserto de Qédem adentro. Situado dentro da cratera de impacto do M314-26[12] – uma joia que se desgarrou das vestes azuis do anjo Yadesh no ano 44.314 – Omeq Liviná é também chamado de Gan Tziporá – O Jardim de Séfora – pois foi semeado com as vinte e seis sementes do Jardim superior de Lorde Atiká. Disseram os sábios de Aur: - Por que ele se chama Gan Tzipora? Porque Tzípora tem as mesmas letras de Há’Tzeruf cujo significado é “O Permutador”, pois foi neste local que Geon Nistar – o sábio – permutou as letras que fizeram brotar as vinte seis sementes que floresceram no Vale de Livina e é por esta razão que os sábios vem até aqui para estudar das permutações dos Nomes Sagrados de Atiká.

Os antigos mestres da sabedoria dos B’ney Éber foram quem escavaram as cavernas nas quais habitaram, durante milênios, nas bordas da cratera do M314-26 e, principalmente a meurá de Adam Kássia.

- Avigdor? Nos conte a agadá sobre a vara mística do mestre Moisés a qual Jetro havia plantado no jardim dentro de sua tenda? – Pediu Avner, o líder da terceira tribo. – E por que ele lhe deu Tzípora sua filha por esposa? – Completou.

- Na vara sagrada está gravado o Sagrado Nome do Senhor do Universo através da cifra atbash que não era conhecida de todos aqueles que tentaram retirar a vara do jardim. Jetro então prometeu que daria sua filha para o homem que conseguisse ler o Nome e levantar a vara. Quando Moisés entrou no jardim e viu a vara, ele leu a cifra, pois sabia como permuta-la e revelou o Nome Sagrado. Ele ganhou Tzípora justamente por este mérito, pois Tzipora tem as mesmas letras de há’Tzeruf que é permutar.

- Este não é o segredo dos pássaros de fogo Avigdor? – Interrompeu Ëdá – o jovem[13] questionando sobre os hofa’ót.

- A permutação dos Nomes Sagrados e das palavras da Torá que Moisés recebeu, cria um pássaro de fogo e sobre suas asas a alma se eleva. Através de dois métodos[14] de permutação “hofa’á” se transforma em Tzipor que é a palavra no eberiano para pássaro.





[1] O Adão Celeste – Arquétipo de toda humanidade.
[2] Gematria de Metatron e Shaddai que é o nome do cometa no sentido inverso: Yadésh
[3] Hiya (Shekiná), Ora (Buda), Dirka (Senda) e Kushta (Ordem) – semelhante ao Lama, Buda, Dharma e Sanga do budismo tibetano.
[4] Assembleia do Mistério
[5] Vale de Liviná
[6] Coração de Atiká – A Quinquagésima Lua de Aur
[7]14º dia de Kislim14º dia de Kislimu
[8] Impuro
[9] Segredo Ancestral
[10] Do ocaso do primeiro sol até a ascensão de Pála, a terceira lua.
[11] Pedra do Brilho
[12] Metatron Shadai Adonai
[13] Edá há’Naar – uma alusão ao Anjo Metatron.
[14] Atbash e Avgad


Excerto
Crônicas De Qédem
Edição Comemorativa
10 Anos

Autor
Dipankara Vedas
Misha'Ël Ha'Levi





terça-feira, 27 de maio de 2014

A Transmissão

A Transmissão
ID: 144.026.207.048 –  583 שידור חי

“E lá estava ele! Seu corpo em posição yogi levitava apoiado nos galhos da árvore luminosa. Seus lábios sussurravam palavras místicas e enquanto os frutos da "Etz ta'alumot" brilhavam como as 144.000 esposas do Senhor do universo e os escribas divinos, criaturas angélicas anotavam em folhas da tamareira celeste, os mistérios divinos que seus lábios sussurravam”. –

Palavras sobre Aruãna – O Jovem

Miron, o campo das palmeiras reluzentes – as Tomerim Mavriqim. Suas folhas contem as setenta esfinges reluzentes da Sabedoria codificados pelo Senhor do universo e escritos no antigo idioma dos mistérios, o Shab’ta. Miron é também conhecido por “Shadê Chochmat Nistar – O Campo da Sabedoria Oculta.
Em Aspar Galiúta – A Planície do Livro Revelado – acima de Miron, sob a luz de dPavonis[1] a principal nesta formação estelar, chamada pelos antigos de Constelação do Ninho do Pássaro[2], dentro do Hall da Meditação, a câmara interna de Pádma Sharon[3], a caverna onde se encontra a “Shoshanat Hit’Orerút[4]”, ali estavam por reunirem-se todos os cabeças das treze tribos dos Filhos de Éber para o “Netiná Yibur há’Neshamá – cujo significado é “Doação Transmitida da Neshamá” – o ritual secreto onde a centelha da vida de um dos sábios antigos da tradição mística do deserto que fora conservada em uma lâmpada especial dentro do Heichal há’Shidur - Salão da Transmissão, é doada para o corpo de um dos jovens iniciados e especialmente para aquele que adquiriu mérito para receber a faísca divina de um sábio.
Uma câmara secreta em Aspar Galiúta esconde Setenta e duas lâmpadas místicas que entesouram as almas divinas dos Sábios antigos, um mistério contemplado somente por poucos seres nos cinco mil anos do governo de Ayyub. O salão da transmissão fica em uma parede rochosa na muralha sul da cordilheira de Miron. Um longo corredor conduz à câmara principal onde as Lâmpadas estão entesouradas. São na verdade seis câmaras contendo cada uma doze lâmpadas com as almas dos sábios antigos. Seis sentinelas divinas guardam as entradas das câmaras e somente os iniciados com lév tahór tem permissão de passar pela tara’aot e adentrarem nas câmaras principais.
O ritual da transmissão é também conhecido como “Shidür há’Neshamá” e por vezes “Shidür Chay – A transmissão da Vida”. A luz de Tzzipori, a quarta estrela de Pavonis havia apontando aquele que seria o receptor no dia do seu nascimento, e assim a criança fora educada desde tenra idade nas trinta e duas sendas místicas sendo preparada para este Ay’ad[5].
Diferente dos mazalot – os destinos impostos pelas influencias zodiacais das constelações aos seres do universo, um Ay’ad é um destino conhecido, desperto na alma do sábio através da jornada pelo “Ésser Mudrachut Livenut Qadushot – O Corredor dos Doze Pavimentos sagrados[6]” durante a qual ele recebe instrução divina dos Doze Reis. Uma litânia[7] poética é dita pelo estudante dos mistérios:

“Omm - Jordanearei pelo Ésser shenim Mudrachot Livenut Qadushot – Omm - O Corredor dos Doze Pavimentos Sagrados e instruído serei pelos Doze Reis e serei Sábio - Omm”.

Todos os filhos de Éber viriam para celebrar este momento e o vale ficaria repleto de milhares de pessoas como os pensamentos jamais poderiam enumerar. Doze das treze tribos já haviam chegado e a única ainda ausente era a nona o que se fazia notar pela ausência do nono matê[8]. O povo armara suas tendas na planície de Aspar Galiúta. À noite, lamparinas a óleo de q’namon impregnariam o ar com o aroma do conhecimento, fogueiras rodeadas por danças circulares e revelações da Sabedoria ao som de instrumentos e cantos conferiram uma beleza particularmente esotérica ao vale.
A lâmpada mística fabricada por uma das encarnações de Dipamkara Vedas contendo uma centelha de Gamma Leonis[9] já fora retirada do Heichal há’Shidur e colocada no antigo altar dentro da Câmara interna. A própria tara’a, a sentinela da quinta câmara onde a lâmpada estava entesourada a trouxera. Tudo estava preparando para a Transmissão.


A Jornada

Setenta dias haviam decorrido deste que a 9ª tribo houvera saído de Bit Alah’aya, a Casa dos Deuses. Encontravam-se agora em Harij onde os Engenheiros celestes estacionaram sobre flutuação antigravitacional, as gigantescas Pedras de Gauriil Ishliha – o Arcanjo Gabriel – nas quais os mistérios das constelações foram escritos incluindo o seu número de estrelas. Estas doze megalíticas pedras chamadas de Pilares das Constelações erguem-se a onze mil metros fascinando a todos que as contemplam e devido a este mistério profundo o lugar foi apelidado de “Omeq há’Qabaláh – O Vale da Recepção”. Trazidas por cada um dos doze príncipes de doze asas do espaço profundo de cada uma das doze mazalot para serem um mistério revelado aos despertos, foram postas neste lugar há setenta e dois mil anos. São como gigantescas montanhas e uma alusão permanente aos pensamentos elevados e por esta razão os filhos de Éber as nomearam “Esser shenim há’Harim Hirhurim há’Sodot – As doze montanhas dos pensamentos sobre mistérios divinos”. Os habitantes do local as apelidaram de “Fundamentos do Universo[10]”.
Fontes de água luminosa chamadas “Acqua Luminae” na língua dos imigrantes e de “Mayim Zoharim” no idioma de Éber, fluem das gigantes pedras flutuantes abaixo, migrando como cachoeiras brilhantes azuis e sendo juntadas nas miqeva’ot – as doze piscinas ritualísticas – escavadas pelos Príncipes celestes por ocasião na qual transportaram as pedras.
Ao redor das Pedras de Gauriil flutuam as rusticas residências dos habitantes de Harij[11] também conhecido por “O vale do horizonte distante”, uma alusão ao lugar onde o futuro pode ser contemplado. Escavadas em rochas levitadas que foram capturadas pela gravitação angélica das gigantes montanhas, as moradias dos residentes de Harij tornam ainda mais bela e mística a paisagem. Sete vezes a cada ano os rituais de Aur preenchem o local e a atmosfera com cantos e alegres poesias. Transmitem os habitantes do lugar, através de tradição gravadas em músicas e poemas, que, uma vez a cada mil duzentos e sessenta e seis anos, um dos príncipes celestes de doze asas desce à região trazendo em suas plumas seis novos espíritos que serão presenteados ao “Livinat Spin’Ot[12] – os nascidos sem alma[13]”, doze crianças geradas sem centelhas para serem encarnações dos anjos. Seus espíritos são faíscas das almas dos Engenheiros celestes e são doadas por eles uma vez a cada vinte e dois séculos e meio. Estas crianças serão os “shaerei kochavim – os Portões Estelares” através dos quais a luz da Sabedoria dos Anjos se manifestaria no universo.

“Sejamos uma vasilha aberta, preparada pelo oleiro divino para receber as águas puras da Sabedoria Celeste a fim de transmiti-las à humanidade”.
Invocação mística dos filhos de Harij

Os filhos do Vale do Horizonte Distante são também conhecidos por “Os Fabricantes de Cântaros” devido à arte na confecção destas vasilhas sagradas usadas nos rituais da Sabedoria de Qédem para colherem especificamente as águas luminosas.
O gigante planeta Sarim podia-se ver no horizonte vestidos pelas ananim kacholim – as nuvens azuis – exaltando, nas almas dos contempladores, os mistérios interiores.
Após cruzarem o “Vale de Harij”, todos os integrantes da caravana mística detiveram-se na Planície de Mishmar Aiyalon cujo significado é “A Sentinela do Campo das Gazelas”, pois nesta região habita a guardiã do Arco do Esplendor que da passagem para o corredor de Nahor Ni’Olam, onde ao ocaso do septuagésimo primeiro dia início do septuagésimo segundo, o universo se abriria para eles e todos contemplariam os mistérios celestes. Agora quase para completar-se o septuagésimo segundo dia, a caravana estava quase próxima ao destino estabelecido. Acampariam ao redor do Arco do Esplendor para contemplar as escrituras de Chatimá Malachit, a assinatura angélica do Cometa Yadësh, quando a belíssima chuva de meteoritos azuis elevaria os espíritos dos yogim[14]. O corredor de Nahor Ni’Olam fica a quarenta e dois quilômetros do Vale do Horizonte distante.
Passada a noite e a belíssima contemplação do Anjo Yadësh, a caravana colocou-se novamente a caminho. Assim que chegaram a Ni’Olam, os cantos de Qédem preencheram o canyon. Vozes uníssonas entonadas com beleza, uma invocação aos Engenheiros celestes, os quais acreditavam os nativos do Deserto, os transportariam dali à entrada de “Mish’kan Livnat há’Saphir – O Tabernáculo do Pavimento de Safira - 32 dias de viagem a frente e era uma tradição mística verdadeira. Logo que começaram a entoar a shirá, uma maravilhosa luz desceu dos céus acima das Pedras de Gauriil passando sobre a caravana que se encontrava dentro do canyon. Assim que cruzou acima do corredor, todos foram abduzidos e instantaneamente deixados em Miron. Penetraram o vale para se juntarem às demais doze tribos.
A câmara interna estava cheia. Sons diversos, burburinhos e sussurros que recitavam poeticamente orações sagradas, especialmente o “Evenim há’Briáh[15]”, preenchiam o ambiente. Ruídos dos xales de orações sendo enroupados, sons de páginas de livros rituais sendo viradas e um verdadeiro falatório sagrado, como uma canção mística, sequestraram o ar. O barulho de pederneiras sendo riscadas para acender nerot[16] diversas. Acesas as velas e lâmpadas suspensas seguiu-se o silêncio por longos 137 segundos. Os treze líderes das tribos dos habitantes do Deserto adentraram a câmara sob as vozes de cantos místicos e a recitação dos Nomes Divinos trazendo nas mãos colocada sobre uma tábua de safira bruta, não lapidada, a lâmpada mística que preservava a centelha de um dos mais antigos anciãos da tradição: Hayim Vital. O aroma de nataf que fluía de bastões de qetoret samim acesos no ambiente logo impregnou o ar causando profundas inspirações olfativas e elevando assim ainda mais os pensamentos.
A chispa sagrada do santo ancião sobre a qual sabiam ser uma centelha Gamma Leonis, estrela na constelação do Ari’zl, estava pronta para deixar seu receptáculo sagrado e entrar no jovem que houvera sido destinado para recebê-la.
O moço tinha a cabeça e o corpo cobertos por um xale bordado em shabtá, o idioma dos mistérios. Podiam-se ver apenas os fios prateados de suas longas zaqenot que reluziam sob a luz da Constelação do Ninho do Pássaro.
“Quando um sábio morre, sua Neshamá, que é uma fagulha estelar, retorna para o lugar de onde se originou, sua estrela natal” – declamou o orador, o encarregado de dar inicio ao ritual ao que o povo respondeu: - Permita-te o Eterno permanecer conosco para iluminar os nossos caminhos! – e continuaram com vozes uníssonas carregadas de emoção:

Siman le’Mashiach
“Um sinal do messias”
Eheyêh asher Eheyêh
“Serei o que Serei”
Gal ni’Olam
“Desvenda o invisível”
Megalêh há’Nistar
“Revela o Escondido”
Chacham, chacham, chacham ve’ód fa’am chacham
“Sábio, sábio, sábio e novamente sábio”.
Shidür ha’Neshamá
“Transmite a Neshamá”
Netinat há’Chayaáh
“Doa-nos a vida”
Chacham, chacham, chacham ve’ód fa’am chacham
“Sábio, sábio, sábio e novamente sábio”.
Gal ni’Olam
“Desvenda o invisível”
Megalêh há’Nistar
“Revela o Escondido”
Netinat há’Chayáh
“Doa-nos a vida”
Shidür há’Neshamá
“Transmite a Neshamá”

Os anciãos colocaram a tábua de safira sobre um meio altar feito de pedra de shocham no centro da câmara sob a luz de dPavôni que fluía pela abertura no teto sobre a cama de vozes que recitavam o poema da transmissão[17].
Um cântaro cheio com as águas colhidas das piscinas das cachoeiras formadas pelas quedas das Pedras de Gauriil, as Mayim Zoharim, fora trazido. Quarenta e duas lâmpadas místicas e setenta e duas velas acesas e introduzidas no Hall por dez meninas e doze meninos aguardavam o iniciado.
No centro do grande salão não natural e que fora escavado misticamente à frente do altar sobre o qual a lâmpada agora repousava, uma grande almofada fora colocada entre seis pequenos pilares de sessenta e seis amót de altura. Ali se sentaria o candidato para ser preparado sob a carruagem de preces sagradas e elevadas para a transmissão.
O requerente foi introduzido escoltado pelas dez meninas e pelos doze meninos já com suas quarenta e duas lâmpadas e as setenta e duas velas acesas iluminando misticamente o ambiente da caverna. O jovem Aruãna[18] tinha o corpo repleto de inscrições místicas e sagradas feitas com kufar lavan[19], uma escrita chamada Ora’ita[20] desenhada cuidadosamente com intensa kavanná por Tavish – o Escriba Sagrado.
Colocaram-no sobre a almofada entre os pilares e logo as meninas e meninos o cercaram com suas lâmpadas e velas acesas ao som das palavras do Poema da Transmissão que ainda permanecia sendo recitado.
Em sua mão esquerda o jovem possuía tatuado um belo aqrav cercado pelas inscrições místicas do Nome de 42 Otiót de forma secreta com as letras do Hallel de Dód[21] que desciam pelos seus dedos e subiam pelo antebraço. Mistérios divinos que somente o candidato conhecia.
- Sheni chaii – saudou o orador à centelha de Vital entesourada na lâmpada enquanto juntava as mãos à frente do coração, saudação esta cuja tradução é “segunda vida” e alude à segunda vida que seria concebida ao jovem Aruãna e que para ele literalmente seria como uma segunda vida.
- Ao término deste ritual da transmissão você não mais se chamará Aruãna, mas Arkun[22] será o seu novo nome – balbuciou o orador.
Vozes se ergueram em cantos sagrados preparando a atmosfera da caverna e as almas de todos os participantes deste ritual tão importante e requerido pela tradição, que um sábio doe sua alma para que, toda a sabedoria por ele penetrada seja mantida no mundo e o ilumine, pois, se um sábio morre e sua alma não for transmitida, o mundo seria coberto pelas trevas da ignorância. Sem revelar toda a sabedoria que penetrou durante sua vida, seria como se houvesse sido ateado fogo a uma biblioteca repleta de livros da sabedoria. Em razão deste mistério, as tribos receberam pela tradição a incumbência de preparar em cada geração um jovem para receber a alma de um sábio durante sua estação mística.
Dipamkara Vedas estava presente e para este ritual, pois fora uma de suas reencarnações que preparara uma lâmpada especial, uma vasilha mística para abrigar a alma do velho Vital e caso o jovem falha-se e não conseguisse absorver a centelha do Sábio em seu corpo ela seria devolvida ao seu receptáculo. Ela então seria entesourada nesta lâmpada especialmente construída pela alma do velho fabricante de candeeiros em gerações anteriores até que outro iniciado tivesse mérito para recebê-la.
A noite não era qualquer uma, fora esperada durante muitos anos até que uma conjunção planetária especial acontecesse entre Gamma Leonis e Tzedeq[23] criando uma Astra Portia[24]. Uma conjunção raríssima como esta acontece somente uma vez a cada 424 anos.
Os escribas do deserto estavam presentes para anotar o acontecimento. Músicos com seus místicos instrumentos acompanhavam as vozes que recitavam as bênçãos e invocavam os Nomes Divinos.

A Árvore Da Iluminação

Numa câmara secreta que se encontra ao fundo da caverna está a Etz Tal ha’bahir – A Árvore da Iluminação - e assim que o ritual da transmissão fosse completado, a câmara seria aberta e o jovem seria conduzido até ela e lá dentro permaneceria durante noventa e dois dias até atingir o estado chamado “Goyim Galil – Nações Reveladas” quando todos os povos interiores do rapaz alcançariam total unidade e elevação sob a instrução da centelha de Vital agora em seu corpo. Este período seria de quatorze luas no ciclo lunar de Pála. Quando a terceira lua ascende em seu décimo quarto ciclo o povo a chama “Dor va’Dor[25].
A Acqua Luminae - as Mayiim Zoharim[26] - foram trazidas em um cântaro especialmente confeccionado pelos habitantes de Harij para este propósito. O orador tomou-o e passou a recitar uma bênção no idioma de Éber: - “Baruch atá Atiqa Qadishá, Elohênu melech há’Iaqumim, she’notzer mayim zoharim”. Após a benção, o oficiante cerimonial tomou o cântaro, o levou ao jovem candidato, deu-o em suas mãos e recitou: - Estas são as águas luminosas, as águas da Sabedoria, e todo aquele que delas beber, tornar-se-á um sábio. O jovem tomou o cantado nas mãos e tomou das águas luminosas.
- E para que a tradição não se perca e toda a sabedoria seja ocultada, esta centelha e com ela todo o conhecimento te é doada – disse o oficiante fitando nos olhos o jovem iniciado.
Seguiu-se o ritual. A lâmpada foi aberta quando o selo místico sobre ela fora quebrado e todos viram quando a centelha do velho Vital flutuou e transmigrou-se com sucesso para o jovem Aruãna.  Assim a Sabedoria foi mantida entre todas as tribos.
As canções místicas tomaram o ambiente da câmara e estenderam-se por todo o vale, e foram ouvidas por aldeias vizinhas sinalizando o sucesso da transmissão da alma do sábio Vital para o agora nomeado Arkun.
Duzentas e dezesseis sentinelas, as tara’aot de muitas Astria Portias desceram e iluminaram o vale inteiro com seus espíritos, tornando a noite única e magnificamente extraordinária.
Os mais elevados podiam ouvir o canto das estrelas, poesias solares entoadas pelas almas do homem celestial. Os escribas copiaram-na e os chefes das tribos a incluíram na tradição mística dos filhos de Éber.


Haia’Ël

"Haia'Ël - a Estrela Haÿffa - ascendeu, caminhando pelo Rio de Luz nos passos de ahavah (amor) iluminando os mundos de Carina e todos os seus habitantes com as Luzes do Nome Brilhante e com a Sabedoria dos 26.000 Anciãos da Compreensão cujas palavras podem ser ouvidas sob as sombras do Carvalho de Martin'Êtz nas noites em que Haia'Ël intensamente brilha. Ahhh... Haia'Ël - a Estrela Haÿffa - a caminhante no Rio de Luz. Estrelas menores vestem os seus belos pés que jornadeiam sobre a estrada de Ahavah. Os mundos ouvem a sua voz, quando os amantes da Sabedoria trilham as estradas de Shoshanat Darchá: "Conheço os passos daquele que andeja o Nativ do Amor. Haia'Ël - a Estrela Haÿffa".

Poema de Yeli'Ël, poeta místico do sistema planetário de Carina, sétimo mundo de Haÿffa - a  Estrela da Ascenção. - Crônicas de Qédem.



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[1] 4ª estrela na Constelação do Pavão
[2] Qan há’Tzipor
[3] Lótus de Saron
[4] Flor do Despertar – Nível de consciência de Iluminação, do Desperto.
[5] Destino, objetivo, finalidade.
[6] As doze permutações do Nome Divino
[7] Uma litania (ou ladainha) é uma forma de oração mística que consiste em uma série de preces feitas em estrutura responsiva.
[8] Cajado
[9] HIP 50.583
[10] Iesodót ha’Iaqum. Ensinaram os sábios que o valor numérico de Fundamentos do Universo é o mesmo de “Shaerei Biná” cujo significado é “Portais da Compreensão”.
[11] Horizonte
[12] Vasilhas de Liviná – Os receptáculos para as almas do Sétimo Céu, as mais elevadas do universo.
[13] Noled blí neshamot
[14] Um iogue, ioguim, yogi ou yogin (em Sânscrito: योगी yogini é uma forma feminina para o termo) é um termo que caracteriza os praticantes de yoga. Esta designação é mais usada para praticantes avançados. A palavra "yoga" em si - oriunda da raiz Sânscrita yuj ("unir") - é normalmente traduzida como "união" ou "integração" e pode ser entendida como a união com o Divino, ou integração do corpo, mente, e alma.
[15] Nome de D’us de 42 Letras
[16] Velas de cera de tamareira com o aroma de q’namon
[17] Shirat há’Shidur
[18] Literalmente “Arca”.
[19] Henna
[20] A Instrução Divina gravada em Shab’ta
[21] Hallel 119
[22] Literalmente “Antigo”. Nome dado àquele que, através do ritual da transmissão passará ser o promulgador da tradição mística e o líder da tribo.
[23] O planeta da Justiça
[24] Moéd: do hebraico “tempo fixado” um tempo específico, uma janela espiritual por onde a luz desce ao mundo físico. Do latim Astra Portia – Literalmente “Portão Estelar”.
[25] Geração a Geração
[26] Myrhvz Mym

sábado, 15 de janeiro de 2011

A Cidade Dos Antigos


Capa -Arte
"Daniela Owergoor"
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Não usar sem a permissão do autor

*Este conto é parte da Obra de Ficção Mística "Crônicas De Qédem"

A incomum nevoa alaranjada escondia as ruínas místicas das velhas construções que agora são conhecidas por “A cidade dos Antigos”. Do final da Ponte de Séfora, onde começa o Platô de Órion, podíamos vê-la ao longe, com o uso de binóculos eletrônicos especiais, cujas lentes feitas de partículas de taqion, fabricados em Meconái e presenteados ao patriarca de Aur, nos permitiam enxergar até mesmo as micro-fissuras dos varais feitos de yachalon, que um dia foram as armações que erguem a velha construção. Quarenta e duas residências erigidas ao redor do Templo de Machon onde os Ethanim realizavam os rituais. Velhas por serem antigas mesmo, e não por serem ruínas, uma vez que a ausência de tohú[1] na atmosfera de Aur não permitiria o surgimento de monturos formados pela ação do tempo, mesmo estando a “velha cidade” no deserto profundo, o deserto de Qédem.

- Você acredita realmente que ela esteja escondida ali? Dentro da Cidade dos Antigos? – perguntou-me S´thur na madrugada do primeiro dia de Tashrí, após o ritual em que as memórias dos Ethanim foram celebradas e que seus nomes foram invocados, através da mística e secreta oração, conhecida dos iniciados de “O Nome de Atiká de 42 Oti´Ot, em cada residência dos Sekudot. Uma celebração mística, rica em sabedoria, bela e repleta pela tradição, servida do vinho místico de Aur e acompanha de biscoitos feitos de leite de tachash e essência de q´namon.

- Assim diz a antiga agadá de Hamunná[2] e as palavras gravadas em Shab´ta numa antiga caverna em Zohar[3] na constelação do An Nahr[4].

- E o que diz a inscrição? Perguntou-me enquanto mantínhamos os olhos fixos na direção da misteriosa construção, cuja idade era de 47.766 anos. Haviam sido esquecidas ao tempo há 5.766 shanot, desde que os Iordei – Os Patriarcas Antigos – repousavam em suas Qufsim escondidas no Salão dos Segredos de Aur.

- “Dez vasilhas Ele criou. Modelou-as do nada e as preencheu com Sua luz pura. Seis não puderam contê-la e se romperam aprisionando em seus cacos a luz da criação. Os antigos chamaram-nas de “Centelhas do Ancião”. Elas foram espalhadas pelo universo, e aquele que uma delas encontrar, estudar e compreender tornar-se-á imortal, e o tempo para ele será como um rio cujos afluentes todos o conduzirão para o Mar de Atiká[5]” – recitei-lhe.

- É verdade o que dizem sobre Guardião? E que ele a carrega aprisionada dentro de uma esfera de chashmal atada a um cordão de tzváh[6]? Sua aparência, dizem é de um homem alto, cerca de 8.75 amót[7], cabelos e longas barbas brancas. Dizem que seus olhos são luminosos como a Estrela da Vida e que seus pés jamais tocaram o chão, nem mesmo nos dias antigos – expliquei.

- Ouvi rumores de que ele, o Guardião, não possui fala, mas sempre que abre a boca um som, semelhante ao “sopro do antigo[8]” se faz ouvir, acompanhado de centelhas do alfabeto divino que podem ser lidas pelo iniciado – falou S´thur.

- Disseram-lhe os místicos, que ele possui seis dedos em cada uma das mãos? Incomum para o Sekudá – perguntei-lhe.

- Não! Isto eu jamais tivera ouvido, nem mesmo da boca dos estudantes da Escola de Mistérios. Você está me dizendo que ele, o Guardião, é um alienígena? E qual será então a sua origem?

- Pense em um dos mundos do sistema Q´dmon. Esta pensando S´thur? Agora, procure por um, o único planeta cujos satélites somam seis. Achou?

- Col Echad! Sarim? Você está me dizendo que o Guardião da Cidade dos Antigos é um dos Príncipes Sagrados? Óhhh! Entendi! É por isto então que a agadá Hamunná que narra sua história conta que seus pés nunca tocaram o chão, nem mesmo nos dias antigos? Óhhh entendi.

O azul de Sirius era belo e intenso naquela noite. Abaixo dela, o Caçador exibia o seu cinturão adornado com três preciosas pedras e do outro lado o Argonauta içava suas velas preparando seu veleiro para singrar as estrelas. Tantos mundos, tantos mistérios tornando repletas nossas almas.

- Ouviu falar sobre a planta da Cidade dos Antigos? Dizem que Órion reflete-se sobre ela escondendo em suas dimensões um profundo mistério. Lembra-te da Khaláh?

- “Três Anciãos num carro virão...” – Sim, me recordo da Khaláh, mas que você quer me contar Beni´El? É certo que suas perguntas sempre escondem a intenção de abrir o estudante para que um mistério lhe seja revelado.

- É claro, você sabe que, os “Três Anciãos” são uma alusão às estrelas do cinturão de Órion e o que você não sabe S´thur, é que fisicamente existem “Três Anciãos” que são os Guardiões da Cidade dos Antigos, e apenas um deles é o que protege a “Centelha da Criação”. As “bordas” da constelação de Órion que se refletem também naquele lugar místico são chamadas pelos antigos de “Nativei Ha-Chaiim – As Linhas da Vida”.

- “Veleiros estelares singram as bordas de Órion, deixando atrás de si os rastros luminosos de suas passagens. Timoneiros atenciosos poetizavam seus mistérios, enquanto suas velas, sopradas por ventos solares, empurravam, para longe, suas místicas embarcações, na busca constante de mundos encobertos por mistérios divinos, conduzidos por canções entoadas pela voz das estrelas, revelando, aos espíritos despertos, as linhas da vida, com as quais marcou o Criador, as centelhas divinas, pérolas feitas de lascas de saphir, com as quais ele criou as almas daqueles que buscam por seus mistérios” – recitou S´thur o poema de Argos.

- Conheces o mistério do Templo de Machon? – lancei-lhe antes que seus olhos deixassem de contemplar a constelação de Argos.

- Eu ouvi dizer, na Escola de Mistérios, que o Templo é na verdade um portal para o universo de Qodesh e que ele é o 5º universo abaixo dos céus de Vilon.

- Sim! Isto também é verdadeiro e ainda outros mistérios elevados e que poucos tiveram oportunidade de ouvir. O Templo está diretamente conectado à Sexta Expansão, aos “Céus de Machon”, à Terra de Tevel, ao “Salão dos Segredos” onde há secretamente uma abertura para Pála que conduz diretamente para dentro da Câmara secreta dentro da Arazá d´Alahá – A Grande Pirâmide, e todos estes mistérios foram gravados na palma direita de Yachid, o 30º dos Ethanim com letras bio-luminescentes do alfabeto de Atiká. Assim, também, cada um dos outros Ethanim tem o seu mistério escrito em suas mãos.

O avir mizrach soprou vindo do deserto interior, trazendo o aroma do q´namon provocando imediatamente a ampliação das nossas consciências. Ao mesmo tempo, um bando de pássaros de fogo cruzou a noite estrelada logo abaixo da belíssima espiral galáctica, uma das satélites de Qédem visível nos céus.

- Beni´El? O que acha de irmos até lá? – lançou-me S´thur este surpreendente desafio pegando-me completamente desprevenido.

- É brincadeira, não é? Você está querendo ir até a Cidade dos Antigos? Ouvi bem S´thur? Há 47.766 anos ninguém coloca os pés nas areias míticas de Túvia[9]. Ainda não acredito que você está me propondo tal desafio!

- Existe alguma proibição para que os pés de dois iniciados da Escola de Mistérios pisem em Túvia?

- Não! Não existe qualquer proibição! Mas é verdade que há milênios ninguém sequer considerou a hipótese.

- Beni´El, existe uma kartis nessiá no final do Platô e eu sei, assim como você, que ela conduz diretamente para dentro da Cidade. Nós podemos caminhar até lá, e usá-la para atravessarmo-nos para dentro de Túvia.

- Pelas barbas dos Ethanim – exclamei – o que esperas encontrar lá S´thur? Não é possível que você esteja pensando no que eu imagino que você esteja pensando...

- Um dos Três Guardiões! – declarou-me apontando com o dedo indicador esquerdo na direção da Cidade dos Antigos.

- Benditas sejam as tranças do tachash! D´us! Ele está mesmo pensando naquilo que eu imaginava que ele estava pensando!

O desafio arrepiou-me a cervical e me encheu de temor e ao mesmo tempo aguçou profundamente minha curiosidade e o meu desejo em aceitar a proposta de S´thur.

- Esta bem! Você me convenceu! Vamos até a kartis nessiá e que as vozes dos Guardiões se façam audíveis em nossas almas.

Levantamo-nos e após pronunciarmos a Benção da Sabedoria dos Ethanim, iniciamos a caminhada até a passagem milagrosa, colocada no final do Platô de Órion. Esta kartis nessiá tinha a cor verde da pedra de Pála. Fora instalada na frente de um obelisco retangular feito yachalon em estado bruto, e, portanto, não possuía o brilho de um diamante trabalhado pelo artesão. S´thur parou por alguns momentos na frente da passagem milagrosa, respirou fundo e atravessou sendo transportando instantaneamente para dentro de Túvia. Segurei a minha sha´on com a mão direita e lancei-me logo atrás dele. Do outro lado olhei para a ampulheta preenchida com centelhas da nebulosa do relógio de areia. Nenhuma micro pedra havia descido para repousar no fundo da redoma.

- Beni´El? Olhe os céus. Parece que a névoa alaranjada apenas esconde a Cidade, aqui dentro os céus estão limpos.

- É meu amigo S´thur. Mais um dos mistérios de Aur. E agora? O que vamos fazer? – perguntei-lhe, uma vez que a iniciativa havia sido dele.

Estávamos no centro da Cidade, sobre a pedra de Pála que havia sido usada para a kartis nessiá. As quarenta e duas construções que davam origem à Cidade dos Antigos nos cercavam e à nossa frente, uma praça onde, dez bancos feitos de madeira de Ilon, estavam dispostos em círculos, no que me pareceu ser uma pequena praça.

- Você acha que foi aqui onde, um dia, os Ethanim e seus discípulos se sentaram para juntos, estudarem os mistérios do Sagrado?

- S´thur, eu ainda posso sentir a essência de suas presenças neste lugar – respondi-lhe apontando para a praça.

- Veja Beni´El – disse S´thur apontando para um local adiante da praça à frente da qual estávamos.

Um ponto luminoso surgiu, diminuto, a principio, por estar além do alcance de nossa visão, e que foi crescendo gradualmente à medida que se aproximava nos permitindo descobrir tratar-se de uma esfera luminosa de energia. Estacionou à nossa frente e logo e tão rápido quanto o piscar dos olhos, movimentando-se desenhou, no ar, a figura de um ser, com cerca de oito amót de altura.

- Pelas barbas do Sagrado – S´thur exclamou ao perceber que se tratava de um dos Três Guardiões da Cidade dos Antigos.

Enquanto pasmados admirávamos a figura alta que saia de dentro da luz, outras duas esferas luminosas surgiram vindas, cada uma delas, de um dos lados da praça. A segunda surgiu à esquerda, permanecendo suspensa no ar por algumas micro pedras da minha sha´on, enquanto a terceira veio direto da direita indo estacionar ao lado do ser que agora levitava sobre sua própria essência. Ao se aproximar, a segunda esfera luminosa logo tomou a forma do segundo Guardião. Antes que três das micro pedras da minha sha´on repousassem no fundo da redoma da ampulheta, os três seres já haviam tomado as formas os Príncipes Sagrados de Sarim. Uma visão mística de arrepiar as nossas almas. Um som mais belo do que todas as sinfônicas do universo executando juntas a Shari-Yah, encheu todo o lugar. Era o “sopro do antigo” e, conforme a tradição nos havia ensinado, nossos olhos viam as otiot sagradas do Shab´ta surgirem de dentro de suas bocas, escrevendo no ar, mistérios agora revelados, mas que ainda não haviam sido comunicados a nenhum ser no universo.

- Olhe Beni´El! Órion – convidou-me S´thur com o gesto de cabeça a contemplar a constelação do Caçador que numa visão mística, se mostrava agora nos céus sobre nós. As três massas solares principais de Órion emitiam pulsos espásmicos como se estivessem conversando umas com as outras, ao mesmo tempo em que os “Três Anciãos” levitavam à nossa frente, emitindo de suas bocas o som do sopro do divino.

- “Existem sessenta e seis mundos que orbitam os três principais sois de Órion e nós somos os Sarim que governam estes mundos. Ao mesmo tempo somos os Guardiões dos segredos dos Ethanim, os antigos patriarcas de Aur. Estamos lá e aqui, aqui é lá, e em todos os universos onde paralelamente a constelação existe” – foram as palavras impressas no ar através das otiot que fluíam das bocas das Chay´Ot[10] de Sarim que levitavam à nossa frente.

- “Cada um destes sessenta e seis mundos possui um único satélite, perfazendo junto com seus planetas um místico número que sustenta uma assinatura chamada pelos Príncipes Sagrados de “Ruchonit Galgalim[11]” – foram as otiot finais que fluíram das bocas dos Sarim, após as quais voltaram a assumir a forma de esferas de energias luminosas e desapareceram através dos caminhos por onde haviam surgido.

- Era isto que você esperava S´thur – questionei sem mover os olhos ou a cabeça para encarar o meu abismado amigo.

- Está brincando? Eu nem imaginava encontrar um dos Guardiões, quem diria os três juntos.

- Você a viu? Perguntei-lhe, referindo-me, é claro, à “Centelha da Criação” segundo a qual, a tradição nos havia informado.

- Sim, estava atada, como diz a agadá, ao redor do pescoço do primeiro Ancião, no cordão luminoso de Tzváh. Viu como brilhava?

- Elas existem mesmo S´thur. Somos os primeiros, em todos os universos, a ver, com nossos próprios olhos, uma das Centelhas da Criação. Imagine toda a Sabedoria contida nelas.

Algumas horas se passaram durante as quais discutimos o que vimos e ouvimos. Atravessamos a kartis nessiá de volta ao Platô de Órion. Terminamos a noite debruçados sobre o tabuleiro feito de vidro de pítida, concentrados numa partida de xadrez aurean, conhecido popularmente como “O Jogo da Sabedoria dos Antigos[12]” com peças feitas de bera´k emitindo seu brilho fluorescente na tênue escuridão dissipada por uma lâmpada suspensa que flutuava rente ao chão.









[1] Caos
[2] Antigo Sábio de Zohar
[3] Épsilon EridaniB – Também conhecido como “Planeta do Esplendor”.
[4] Eridani
[5] Oceano mítico encontrado no Planeta da Sabedoria – Solomon – chamado “Malchus” ou “Mar da Emanação.
[6] Barbante luminoso cuja propriedade liga o ser ao rosto de Atiká.
[7] 4,20 mts de altura.
[8] Som místico produzido pelo sopro do chifre do Ês.
[9] Nome da Cidade dos Antigos cujo significado é “Boa”.
[10] Criaturas vivas
[11] Rodas Espirituais
[12] Semelhante ao antigo xadrez, mas que possui 73 peças ao invés das 36 tradicionais.