domingo, 27 de dezembro de 2020

As Runas De Bazäq

 


As Runas De Bazäq

 

Nas cavernas de Baräq[1], vale ao sul do deserto de Aür, situada dentro de uma antiga cratera, uma cicatriz provocada pela queda, nos tempos primordiais, de uma grande rocha celeste, homens e mulheres adentravam a madrugada sentados em círculos de três pessoas, lendo as Runas de Bazäq[2], o oráculo místico dos B’nëy Baräq[3], em busca de informações sobre a vida, sobre os tempos para semear e colher, casamentos, associações e outros assuntos pertinentes àquela tribo, formada, em sua grande maioria, pelos descendentes de Baräq, o místico. Havia também os da Galüt, os Goläim, assim chamados os povos que migraram para o vale e aceitaram a Tariag Mitzvot – o Código de 613 preceitos da tradição dos B’nëy Baräq[4].

Lâmpadas suspensas forneciam uma luz tênue e muitas velas feitas de cera extraída das qórem-tamar[5], misturadas com qinamon, forneciam iluminação esotérica e o aroma da especiaria para estender a vida e ampliar a consciência. Uma mesa baixa também feita de madeira de tziporan e com muitas bandejas cheias com tâmaras, se encontra no centro da caverna pronta para servir a todos.

A Runa de Bazäq é composta por vinte e oito cartas feitas de fibra de tamareira embebidas em essência de especiaria de tziporan[6]. Os iniciados são homens, mulheres e adolescentes a partir de trezes anos. Baräq, o pai da tribo, tinha treze anos quando testemunhou a grande pedra descer dos céus. Quando completou duzentos e seis anos, ele migrou para o vale e fundou a tribo dos B’nëy Baräq. Foi ele o criador da Runa de Bazäq, pois era um místico iniciado nos caminhos esotéricos do deserto.

Pequenas bandejas de madeira de acácia cheias com cravos, completavam o hermético ambiente, lançando o aroma dessa especiaria no ar misturando-o ao já destilado aroma de canela produzido pelas velas acesas e espalhadas pela caverna.

A tradição de se reunir nas cavernas do vale de Baräq para ler a Runa de Bazäq é celebrada anualmente na quadricentésima vigésima sexta madrugada porque, somente nessa madrugada se torna possível uma abertura chamada, pelos membros dessa tribo, de “Einai Gavri’ël – Os Olhos de Gabriel” possibilitando a leitura do oráculo e a revelação dos mistérios.

“Pede para ti ao Ancião Sagrado teu Elohim um sinal; pede-o, ou em baixo nas profundezas, ou em cima nas alturas (שְׁאַל-לְךָ אוֹת, מֵעִם יְהוָה אֱלֹהֶיךָ; הַעְמֵק שְׁאָלָה, אוֹ הַגְבֵּהַּ לְמָעְלָה).”

Profeta Isaías

No decorrer da shachar, uma pausa para um chá feito de especiarias e um momento para contemplar as estrelas e a ascensão das galáxias satélites de Qédem, acontece durante o tempo de queda de quarenta e duas mil micropedras de uma sha’on média.

Contam os pergaminhos dos B’nëy Baräq, que o próprio Baräq previu a invasão de Armilus ao planeta da luz divina e a também a vitória de An-Nür no dia da batalha final.

Foi Hatá, o errante[7], quem informou às tropas de Armilus a época na qual o melhor momento para invadir o planeta seria apropriado. Como era um iniciado na Runa de Bazäq, consultou o oráculo e informou aos exércitos das trevas, no entanto, o Ancião Sagrado vetou a ele ver que An-Nür derrotaria Armilus.

No fundo da meurá[8], um trio de musicistas dedilhava seus instrumentos no segredo da música de Eithan D’Ezra dos músicos do mundo de Sheliak na constelação de Lyra no exato momento da ascensão desse aglomerado de estrelas nos céus de Aür.

Lâmpadas Suspensas

O pequenino akrav passeava pelas areias do Vale de Baräq deixando atras de si as marcas de seu passeio. Acima, nos céus, Akrav – a constelação – brilhava intensamente como que desejando revelar os seus mistérios. Ao longe, sentado à entrada de sua tenda, Baräq observava o pequeno lacrau notando que, ao passar por cima de uma das pedras que obstruíam seu caminho, o atrito das patas do pequeno lacrau, fez brilhar a pedra sobre a qual passou. Foi assim que Baräq, no início do governo dos Ethanim, descobriu o material do qual são manufaturadas as lâmpadas suspensas, dos fragmentos da grande pedra que, nos tempos primordiais, caiu do céus naquele vale. Baräq estava destinado a descobrir o material que chamou Tzöhar[9] já que seu nome, Baräq, possui o significado sinônimo a Tzöhar.

É o material extraído desse extenso vale, lapidado em forma de esferas que dá origem às lâmpadas suspensas usadas em todo o planeta para iluminar residências e cavernas. Sem as lâmpadas suspensas não há iluminação. Sem lâmpadas suspensas o estudo da sabedoria não é possível.

E foi assim, revelada por um pequeno lacrau, que a even-tozhar[10] foi descoberta e passou a fazer parte do cotidiano de todos os habitantes de Aür.

- Olhos que pretendem descobrir a Sabedoria precisam ser iluminados. – Disse, em certa ocasião, Nër, um dos instrutores da escola da tradição esotérica da tribo dos B’nëy Baräq se referindo, é claro, as lâmpadas suspensas.

Nër era, além de um professor da tradição de Baräq, o encarregado de limpar, preparar o óleo e acender as lâmpadas da candelabra do templo de Bazäq, erigido em Meurat Há’hitorerut[11], em seus dias.



[1] Relâmpago

[2] Flash de luz.

[3] Filhos do Relâmpago.

[4] תריג מצות

[5] Tamareiras reluzentes

[6] Cravo. Uma alusão ao método de permutar letras com finalidade de revelar mistérios.

[7] Pecador

[8] Caverna

[9] Luz produzida por uma pequena abertura. Na verdade, o termo Tzöhar é compreendido como “janela.”

[10] Pedra da luz

[11] Caverna da Contemplação. Aqui “Meurát (מְאוּרָת)” é escrita com uma grafia construída da raiz de “Ór (אור)” que é “Luz” para significar “A partir da luz de Hitorerut (הִתבּוֹנְנוּת)” que alude à prática de meditação qabalística.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

A Caverna Das Memórias

Seter Sipur
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 Conto Em Construção

Meurat Zikaron
A Caverna Das Memórias
ID: 144.268.207.48
           



AREIAS VERMELHAS

            A aragem caminhante do entardecer, soprava plumas de areia de sobre altas dunas, criando um magnifico véu de poeira e tornando ainda mais belo o crepuscular poético e místico dos seis sóis de Aür. Um torvelinho andarilho movia-se, visto ao longe, em direção ao deserto profundo. Quando um zéfiro como este era visto caminhando sobre as areias, alguém sempre dizia: “ – Ali vai zéfiro do Zen das areias e das dunas.”
            Diversos pares de pegadas impressos sobre o belíssimo tapete árido que compõe o maravilhoso deserto do planeta da luz divina, apontavam a direção tomada por andarilhos iniciados, longevos nos caminhos místicos de areias esotéricas, anciãos das dunas da sabedoria, a crista de Dágna, uma escarpa rochosa que desponta sobre o deserto e coberta por uma extensa duna. Esta beleza do deserto é também conhecida como “Dágna Selaít” pelos povos das areias.
            As impressões dos caminhantes eram como palavras anotadas em um pergaminho cuidadosamente preparado pelo escriba, criptografando mistérios inefáveis, códigos grafados por passos sábios propositalmente deixados para apontar o caminho para os neófitos de trilhas esotéricas. Frequentemente se fazia ouvir, ao ouvido de um noviço qualquer, um velho ditado das areias, um provérbio iluminado pelas estrelas de Akrav[1]:
            “Os que não são iniciados e não conhecem os Caminhos do Deserto, devem aprender a caminhar sobre as pegadas dos anciãos das areias da sabedoria...”
            Certa vez, Chidüsh, um jovem iniciante, questionou por que sempre se sussurrava este velho adágio do deserto ao ouvido de um noviço. “- Muitos foram os que se perderam no deserto por não conhecerem os seus caminhos.” – Lhe respondeu Etzël, um velho professor das areias cujo nome significa “sombra de D’us” pois ele era como uma presença sobre o deserto, uma aparição silenciosa produzida por uma nuvem inesperada e nunca o viam chegar e sempre surpreendia algum grupo de caminhantes do deserto, os Nodédim, que saltavam assustados de seus esconderijos nas areias ou dentre as escarpas dos outeiros quando o percebiam.
            - Hahaha! Tarde demais palermas! – Bradava Etzël, suas palavras cavalgando gargalhadas. – Ora, pare de relinchar, seu velho cavalo do deserto! - Contestava algum às gargalhas do velho das areias.
            Dos que se perderam no deserto, se conta, em outro axioma, que “nem mesmo suas almas encontraram os caminhos de volta à segurança das aldeias áridas.”
            Os professores das areias eram os mestres entendidos nos caminhos secretos do deserto cujas sha’onim[2], preenchidas com centelhas da nebulosa do Relógio de Areia, não despejavam apenas pedras luminosas nos fundos de suas redomas mas, mistérios divinos que somente o “Zen das Areias e das Dunas” conhecem. Eles são chamados “Marei d’Madvra – Mestres do Deserto.”
            Os caminhos do deserto são chamados de “Dirgia D’Naziruta – Os 32 degraus da Sabedoria.[3]

Crepuscular hermético
            Eles não estavam atrasados. Logo no início da hajra, bem na borda do deserto, entraram em uma kartis-nessiá[4] que os atravessou para Omeq Qorem-Tamar - Vale das Tamareiras Luminosas. Ali, apearam de seus dromedários e se refrescaram na fonte de Darchá-Orayita[5] e saciaram a sede de toda a caravana, incluindo a dos animais de cristas luminescentes. Eles, os membros da caravana, todos habitantes de Nizrat Alumot – a cidadela - chegariam à crista de Dágna no horário para o encontro com os líderes dos Edey antes do crepúsculo. Faltava apenas uma hora contada em uma sha’on de bolso para que chegassem ao local. Beberam das águas vivas e luminosas de Darchá-Orayita, se alimentaram com os frutos luminosos das Qorem-tamar e, então, retomaram a hajra e após 72.000 micro-pedras repousarem no fundo das sha’onim, chegaram ao local do encontro. A caravana era composta por quarenta e dois membros sem contar os animais.
            O Ramsia-Tali – o momento entre o pôr-do-sol e o anoitecer – havia chegado. Na orla do deserto, e lá, para aonde haviam subido, sobre a crista de Dágna – uma extensa escarpa rochosa[6] coberta por uma belíssima duna, os líderes das tribos dos Edëy, juntamente com os membros da caravana que vieram de Nizrat Alumot, todos cobertos com seus tali’ot[7], se curvavam sobre suas faces antes de iniciarem a Cavanat-Cochavei – a meditação estelar – no momento no qual as três estrelas da constelação de Beit-Ël despontavam no horizonte oriental iniciando suas ascensões. Eles haviam acabado de descer do cume de Har-Arazá – a montanha do mistério – onde contemplaram o Anapia-Iumá – o por-dos-sois – a ocasião na qual se pode observar o ocaso dos seis sóis de Aür, momento coroado com o crepúsculo do sol vermelho cuja luz é a última a se ocultar no horizonte desértico criando o Ramsia-Tali e, enquanto aguardavam o crepúsculo, recitavam as palavras sagradas do livro de Azhór iluminando as próprias almas. Momento propício...
            A crepuscular e árida brisa vinda do deserto interior continuava alentando os grãos de areia formados por sílicas avermelhadas, aquela pluma soprada de sobre as dunas provocando aquele efeito à luz poente do sol vermelho e à medida em quem os últimos raios de Din se ocultavam sob o árido horizonte em direção ao deserto profundo, produziam estas chamadas “Cholot-Adumim – as Areias Vermelhas”, fenômeno criado pela influência desta particular aura sobre os grânulos de areia que compõem saibros deste deserto. Nesta ocasião, um Gabrá – o Coletor[8] – é enviado para colher dessas areias influenciadas pela radiação do sol vermelho que serão usadas como sais de banhos em águas aquecidas pelas grávidas dos Edëy. Eles enviaram Gaÿa, um dos mais experientes dos Coletores.
            Ao longe, os homens observavam enquanto Gaya caminhava sobre o deserto, em direção as areias vermelhas. A aragem esotérica entoava a “canção da areia” nome dado ao som do vento soprando sobre as dunas, segundo a tradição, a Qalá-d’Razá – a Voz do Mistério – o sussurro inaudível revelando às almas dos iniciados os segredos de D’us. Este sopro profético é também conhecido dos místicos dos B’ney Éber como Ruachá Qadishá Elahaya – o Espírito Sagrado de Elohim.
            A espetacular visão, a areia soprada de sobre as dunas, uma contemplação mística, elevou ainda mais as consciências de todos os presentes sobre a crista de Dágna.
            Após a meditação, guardando em seus alforjes seus tapetes e xales de orações, e tendo retornado o Gabra que haviam enviado, eles passaram a aguardar a chegada das outras caravanas místicas vindas da Capital. Os tarmidaya[9] também estariam presentes e entre eles, Beniel, o capitão da guarda imperial. Eu, Tariq Wasifa, de acordo com a tradição, estando presente, registrei todos estes eventos.
            Descidas duzentas e dezesseis mil micro-pedras em todas as sha’onim, os sóis já haviam se posto e as estrelas cintilavam nos céus embelezando a noite e, apesar de já estar escuro, todos podiam notar que as pegadas de Gaya, deixadas sobre o deserto vermelho, ainda reluziam devido à benéfica radiação que emanava dos grãos da areia. Os anciãos das areias sempre sabiam se algum Coletor havia estado na região devido às pegadas luminosas deixadas impressas sobre o tapete do Divino, como chamam os mestres das areias, ao deserto.
            - Seus passos sempre deixam marcas suaves sobre as areias, não é mesmo Gaya. – Disse Arda, um dos líderes ao Coletor que haviam enviado se dirigindo a ele pelo nome. O significado é que, aquele que pretende penetrar os mistérios escritos sobre as areias do deserto, deve saber como caminhar sobre ele. O darchá d’madvra – caminhante do deserto – era iniciado e preparado desde a juventude para caminhar sobre as areias do deserto da sabedoria.
            Gaya, um tribal alto, cabelos negros encaracolados como os pelos de um Êz das montanhas de Aür, olhos também negros com um poço de itr’an[10] e um dos mais antigos dos Coletores, na verdade um grande professor para os mais jovens, causava muito respeito aos demais.
            Faltando setenta e duas mil micro pedras, as sha’onim indicavam a chegada total do crepúsculo. Todos os participantes do Ramsia-Tali seriam hospedados na caverna de Har-Arazá e, como nos conta a tradição, conversas místicas varariam a madrugada antes que todos se permitissem dormir.
            - Vamos? – Convidou Rab-Hia, um dos anciãos, ao grupo. – A subida é íngreme e os mais novos devem ser auxiliados pelos mais velhos. – Completou.

Avir Lechishót
Sussurros da madrugada

            O vento soprava pela madrugada através dos respiradouros da caverna de Har-Arazá. Para os não iniciados era apenas o uivo do zéfiro da noite e sem nenhum significado. Já, para os instruídos nos caminhos místicos do deserto, o sopro do Avir Lechishót, como conhecido dos andarilhos esotéricos das areias, revelava segredos às almas dos despertos.
            - O que diz? Gaya? – Perguntou um dos membros da caravana que viera de Pardês. – Talvez, que você deva dormir? – Respondeu Gaya em tom satírico.
            - Ele está dizendo que os mistérios registrados nas almas dos sábios, nos aguardam na Caverna das Memórias e que devemos estar preparados. – Respondeu Rab-Hia. – Agora, durmam. - Ordenou.
            Lâmpadas suspensas enfraquecidas conferiam uma atmosfera mística e misteriosa à caverna. Na parede leste, um altar no qual repousava uma menorá acesa dentro de uma pequena abertura côncava clamava silenciosamente a atenção dos noviços. Alguns dos homens estavam sentados na posição da lótus sobre seus tapetes e rezavam, sussurradamente, uma das orações tradicionais do deserto requerida para o momento.
            Próxima à parede oeste, dentro de um belíssimo jardim, uma Qorem-tamar, iluminava, com seus frutos cintilantes, um outro grupo de caminhantes das areias que sussurravam o segredo daquela tamareira luminosa assentado em meio círculo ao redor do jardim.
            Na parede sul, uma grande abertura na forma de um olho, exibia as estrelas que embelezavam a noite. Um pássaro de fogo cruzou os céus gorjeando segredos com seu canto enquanto encandecia suas magnificas plumas. – Ya-how-hu, hu-how-Ya – chilreava a ave de fogo. Alguns dos homens se dirigiram à esta abertura com intenção de contemplar a aparição e ouvir o seu canto místico.

O Argonauta
            Dezenas de embarcações flutuantes, a maioria delas fabricadas em Aviór eCar[11] e, uma delas, em especial, fabricada em jVel[12] na constelação da Quilha. Seu nome “Argonauta”. Um imponente veleiro espacial usado unicamente para transporte dos Anciãos de Aür. O Argonauta possui doze entradas principais que são chamadas de Shaerei-Tzedëk – Portais da Justiça. O acesso às entradas são doze escadas feitas de madeira de Ilon inclusos os seis degraus,  corrimãos de cordame trançado. As doze somam um total de setenta e dois. Ajna[13] é o timoneiro do Argonauta, um homem alto, com 1,80 metros, longos e negros cabelos trançados e, que sempre com alegria e poemas místicos, como instrui a tradição dos timoneiros, conduz este veleiro flutuante às viagens estelares da Sabedoria.
            “- Singra, ó m’alma, as antigas veredas pautadas pelos cometas, carruagens divinas cavalgadas pelos Sarim celestiais. Singra, ó meu espírito, as órbitas esotéricas dos sóis soprado pelos ventos estelares.” – Entoava Ajna enquanto conduzia com firmeza, o veleiro celeste, alçando flutuação do espaço-porto de Aür. “- Singra, ó m’alma...” – cantava. É a tradição...
            Certa vez, sob a condução de Ajna, o Argonauta fez uma hajra às bordas da galáxia. No convés de observação, através das janelas protegidas por vidros de saphir, os estudantes e iniciados da Escola Séter meditavam enquanto observavam as maravilhosas estrelas orbitantes no anel galáctico de Qédem como joias azuis num cordão de prata.
            Havia, também, uma dezena de flutuadores aeróstatos[14] com cabines-cestas dormitórios feitas de madeira de shitim[15], com camas, armários de provisões e estantes para livros e pergaminhos e todos fabricados em Narada, o 4º mundo de dKapa[16] por uma antiga Ordem artesã cuja tradição remonta três mil anos. Ah! Cada um desses flutuadores possui também um fogareiro de luz para cozinhar ou aquecer alimentos.
            Os aeróstatos são inflados com um gás especial extraído das centelhas de Deneb Algedi, sua estrela. O tecido usado na fabricação dos aeróstatos de Narada é fiado a partir da seda da Lepidoptera-Lux cujo habitat é Ür-Qadmaia, terceiro mundo de dFenix. Em razão da “Farfar-Ór[17]”, como chamada em Aür, ser luminosa, os aeróstatos brilham à noite conferindo, junto com as estrelas, uma beleza sibilina aos céus do planeta conduzida por aeronautas iniciados. Um desses iniciados era o próprio patriarca de Aür, Ayyüb, que estava viajando no seu próprio aeróstato. No fogareiro de luz, uma sopa de alho de Darman – o mundo das medicinas – situado na borda da galáxia. O alho de Darman possui um aroma maravilhoso capaz mesmo de dar água na boca. Ayyüb gostava de cozinhar durante longas viagem de aeróstato e pouquíssimos conheciam esta particularidade do patriarca do planeta da luz divina.
            A senda aérea até a orla do deserto onde Ayyüb se reuniria aos líderes das tribos dos Edëy cruza o Vale de Arqa, um local no qual a luz e a escuridão da noite se cruzam na madrugada antes do amanhecer em sete dias distintos no ano. Arqa, durante esses sete dias, é palco de muitas peregrinações místicas durante as quais, os participantes contemplam com meditações e preces, este maravilhoso espetáculo. Abaixo, no Vale de Arqa, está o canyon de Arta[18]. Em suas paredes, inúmeras moradias foram escavadas nos tempos antigos durante os quais Aür era regido pelos Ethanim. Arta é alvo de caçadores de relíquias, arqueólogos e também peregrinos.
            Os céus acima já exibiam algumas das galáxias menores e Qédem ainda não havia despontado no horizonte. Do teto transparente de vidro de saphir, Ayyüb contemplava as estrelas e as espirais menores meditando com seus mistérios divinos.
OS ANCIÃOS
            Os cento e quarenta e quatro, já devidamente vestidos com suas batas brancas cerimoniais, golas altas com bordas em dourado, todas bordadas em prata com um segredo em Shab’tá – o antigo idioma da criação – em escrita cursiva e comprimento até os pés, todos caracteristicamente tatuados com Hina[19] sobre as costas da mão direita com a árvore sefirótica de Hadar sobre a pele, haviam embarcado no Argonauta, o veleiro espacial fabricado na Constelação da Quilha, em um planeta orbitante de jVel[20] e que integra a grande fragata composta por dezoito naus espaciais. Eles são chamados Qadmonim – os 144 anciãos guardiões da Sabedoria oculta de Qédem. Diz a tradição que eles, os Anciãos, possuem as memórias de todas as coisas, razão pela qual são sempre convidados para os rituais sagrados em Aür. Suas bocas somente se abrem para proferir as palavras da Sabedoria escondida e contam, as testemunhas, que, até mesmo é possível contemplar as centelhas da luz fluindo de seus lábios enquanto revelam segredos.
            No terceiro dia do festival, um momento especial e muito aguardado, durante o qual a unificação do planeta Sarim com Pála – a terceira luz – se realizaria, a Luz da Ascensão seria compartilhada de todos e mistérios desde os primórdios seriam revelados pelos Anciãos de Aür. Este momento místico planetário se realiza apenas uma vez a cada 521 anos e é chamado de há’Alyi’Ot – A Ascensão.

Carruagens Divinas
            As rechovot[21] de Aür alçaram flutuação antigravitacional iniciando uma hajra[22] a partir do espaço-porto de PARDÊS, a capital, conduzindo os muitos praticantes e estudantes para participarem do Satori – o festival da compreensão – realizado após o Ioman há’Zicaron – o dia da recordação – dia durante o qual as recordações da Sabedoria da criação se torna possível. O Arpoador também compunha, juntamente com o Argonauta, a caravana levando os 314 estudantes da Escola Séter – a Escola de Mistérios. A candelabra permanecia acesa dentro do salão secreto e crepitavam de suas lâmpadas as centelhas das almas dos sábios da tradição. As rechovot os conduziriam até a borda do deserto a partir da qual uma caravana mística os faria completar a hajra uma vez que a tradição não permitia veículos artificiais percorrendo sobre o deserto.
            Ao extremo sul de Aür, em direção ao deserto profundo de Qédma Hamsa Ória[23], a uma semana de caminhada em caravana sobre as corcovas do davashti-aür[24], na encosta de Tura d’Zachariel[25] fica a planície de Arzei Levanon, um pavimento aplainado na encosta leste do monte sobre o qual se situa a Meurat Zikaron – a Caverna das Memórias – dentro da qual centelhas de almas podem ser recebidas permitindo a ressurreição das memórias dos antigos e assim também da Sabedoria e esta era o principal motivo da vinda dos 144 para Qédma Hamsa Ória. A pradaria à frente da elevação montanhosa é onde cresceram os Arazim-Teurim - os Cedros Luminosos de Aür - cujos galhos são em número de setenta e dois em cada árvore e chamados também de “Perfeições Luminosas.” Este cedros são em número de seis gigantescas árvores que cresceram espontaneamente na região. Dizem, os sábios do deserto, que foram semeados no pensamento de Lord Atiká antes que o universo fosse criado e depois, plantadas pelos Elohim. Tais árvores foram nomeadas pelos Edey de “Os seis dias da criação.”
            No centro da planície fica a Teená há’Gilayon – a figueira do esplendor - sob o qual os místicos alcançam a iluminação. Esta figueira luminosa somente brilha, revelando seu esplendor, quando um andarilho das sendas da sabedoria alcança o Satori[26] meditando sentado sob suas folhas. Dizem os despertos que as folhas da Teená há’Gilayon é repleta de mistérios codificados e é a penetração de tais mistérios que conduz o andarilho das sendas a alcançar a iluminação. Conta a tradição de Aür da Escola Séter que, foi sob as folhas da Teená há’Gilayon que Adão alcançou a iluminação e o despertar. Seus frutos são chamados “Priyut d’Rázim” que significa “Progenitores dos Mistérios.” Conta a tradição dos mistérios que foi Raziel, o anjo, quem pessoalmente deu a Adão o primeiro fruto da Teená há’Gilayon e que, quando Adão o comeu, imediatamente passou a revelar os mistérios a Sabedoria primordial de Qédem.
            As tribos que vivem à encosta de Tura d’Zachariel são comunidades etnobotânicas e também exobotânicas. Seus sábios estudam a interação da sociedade humana com peculiar botânica da região e com a botânica de planetas exteriores.
                        No cume da montanha que, segundo a tradição, fora aplainada pelos Elohim no início da era dos Ethanim há quarenta e dois mil anos, fica o espaço-porto de Bab-Él, conhecido como “O Portal do Divino” através do qual as rechovot-elahaya[27] entraram em Aür, durante a época dos Antigos, trazendo tecnologias ao planeta da luz divina e também revelações da sabedoria divina. Sobre o espaço-porto todo calçado com pítida, a pedra do milagre, está gravado o escudo de Metraton. É o único local no deserto que permite a atracação de veículos antigravitacionais. O Arpoador era uma das naves náuticas antigravitacionais fabricadas em Aviór permitidas a atracarem no espaço-porto acima da montanha.
            É no dia duzentos e noventa e oito do ano de Aür que tem vinte e seis meses num total de mil cento e dezoito dias lunares e solares, a cada sete anos, no qual é realizado o “Ioman há’Zicaron – o Dia das Recordações”, celebrado durante uma semana durante a qual os rituais se cumprem dentro da Genizá – a Tenda do Tesouro Oculto  - também conhecida pelos iniciados como “Öhel Otzër Ne’elam.” É também nesta semana de Zicaron que acontece o “Ishür” que é o alinhamento dos seis sóis também conhecido como “parélios mi-Aür” que não é um fenômeno óptico, mas um verdadeiro alimento celeste. Imagine a beleza dos seis sóis de Aür alinhados em uma diagonal celeste ao entardecer, uma visão capaz de induzir à contemplação aos Qadmonim[28].
            Durante o “ishür” o Principe Raziel atravessa o Portal em sua carruagem celeste e ancora sobre o espaço-porto acima de Tura d’Zachariel.
            À frente da montanha fica o terra-porto de Arzei Levanon onde os hovercraft – os veículos flutuantes do deserto – permitidos nessa região, aportam. Há também lugar e instalações para as caravanas e outros veículos usados em Aür.
            Qédma Hamsa Ória fora o local de nascimento de Dipamkara Vedas, o velho artesão fabricante de candeeiros e das místicas lâmpadas que entesouram as almas dos sábios.
            Dirigíveis vindos de cidadelas vizinhas começavam a sobrevoar o espaço-porto acima da montanha e alguns outros o terra-porto à frende da belíssima pradaria. Os timoneiros manobravam habilmente suas embarcações flutuantes aguardando a permissão para ancorarem tanto no espaço-porto quando no terra-porto de Arzei Levanon. Centenas de passageiros aguardavam o momento do desembarque e logo chegariam também as caravanas terrestres trazendo os Filhos de Éber cuja tradição não permitia o transporte por ar em dirigíveis e embarcações espaciais.
            A grande caverna, como era também conhecida dos iniciados de Aür, estava preparada. Não havia lâmpadas suspensas acesas e toda a iluminação era provida por duzentas e dezesseis grandes velas acesas e distribuídas esotericamente por todo o Babta Naz’ruta[29] onde o ritual seria realizado pelo principado sacerdotal do deserto em cujas mãos estaria a Margna d’Zaita – a Vara da Oliveira do Paraíso.
            Fora da caverna, nos céus, as embarcações flutuantes de Aür continuam a atracar no espaço-porto acima da montanha. O Arpoador estava lá. Veio conduzindo os estudantes da Escola de Mistérios que iriam participar do ritual. Pássaros de fogo cruzavam as nuvens gorjeando as permutações do Nome Sagrado no segredo de temurá.
            Um outro grupo de andarilhos místicos viria através da Kartis Nessiá que fora colocada no final da crista de Dagna e que os atravessaria por teletransporte de Pardês, a capital de Aür, até a orla do deserto de onde seguiriam sobre as corcovas do davashti-aür.

A Ascensão
            Ao entardecer do terceiro dia do festival, todos se reuniriam na pradaria à frente da montanha para contemplarem a Alyi’Ot, nome que recebe a ascensão do gigante planeta Sarim coroado por seus seis anés no horizonte oeste em conjunção com Pála – a terceira lua de Aür. Uma bênção especial seria recitada assim que três estrelas se tornassem visíveis antes da ascensão.
            “- Baruch atá Atiqá Qadishá asher noten lânu ha’Alyi’Ot mi-Aür u’mi-Qédem” – são as palavras na bênção e cujo significado é “Bendito sejas tu, ó Ancião Sagrado, que nos proporcionaste a Ascensão dos mundos de Aür e de Qédem.”




[1] Scorpion
[2] Mini ampulheta fabricada com vidro de Odêm e preenchida com centelhas da nebulosa do Relógio de Areia.
[3] Os 32 degraus (32 caminhos de chochmá-sabedoria). O programa do Zen das Areias e das Dunas de iluminação que contém as profundezas da sabedoria escondida.
[4] Passagem milagrosa. Um portal feito a partir dos cristais obtidos da pedra Pítida encontra em Pála, a terceira lua de Aür.
[5] Caminho da Iluminação.
[6] 978 metros de extensão.
[7] Xales de orações.
[8] Um homem verdadeiro e bom, desprovido da maioria das armadilhas e condições falsas da sociedade “babilônica”. Um homem gnóstico seguro e humilde, que anda na cultura da iluminação.
[9] Discípulos
[10] Piche.
[11] Epsilon Carinae: Estrela binária ao Sul da Constelação de Carina.
[12] Phi Velorum: Estrela supergigante na Constelação Vela.
[13] Sânscrito significando “Sabedoria.”
[14] Aparelho cheio de um gás mais leve do que o ar, e que pode, por isso, elevar-se e sustentar-se na atmosfera; balão.
[15] Acácia
[16] Delta Pavonis.
[17] Borboleta de luz.

[18] Arta - acordado, brilhando, semelhante a um buda. Capacidade de ver o que está oculto nos outros.
[19] Em hebraico “חינה” palavra cujas letras são as iniciais de “Chochmat Adonai Nistar Há’Torá (חכמת יהוה נסתר התורה).
[20] HIP 48774
[21] Veículos de transporte de Aür.
[22] Viagem mística
[23] Cinco Budas. Os cinco filhos da luz do homem primitivo. Os Dhyani buddhas. Os elementos da luz escondidos na matéria. A natureza de Buda que habita fora do deserto dos mundos.
[24] Dromedário de Aür
[25] Montanha do Anjo das Recordações.
[26] Satori (悟り)é um termo budista para “despertar”, "compreensão ou entendimento” é o equivalente ao hebraico Bináh que alude à compreensão divina e aos cinquenta portais da compreensão.
[27] Carruagens dos Deuses
[28] Anciãos guardiões da Sabedoria Oculta de Qédem.
[29] Hall do mistério


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